UM GOLE DO UNIVERSO

em crônicas

Em 2016 coloquei como uma das metas do ano "Aprender a fazer um bom nhoque", mas foi só no final de 2018 que finalmente fiz um nhoque com cara e sabor de nhoque. Um prato que eu pensei "Eu pagaria por isso em um restaurante. Não pagaria muito caro, mas pagaria". E considerando meus talentos gastronômicos, pra mim isso foi uma baita conquista, que só foi possível porque eu me empenhei muito mais do que nos anos anteriores. Em um mês eu fiz mais nhoques (e tentativas de nhoques) do que a soma de todas as tentativas dos dois anos anteriores. Eu aprendi empiricamente que a repetição constante é um importante hábito para aprendermos a fazer algo que exige técnica, tal como escrever... Que é uma das minhas metas de 2019 :)

  • Karen Harumi

1º Vestido

Atualizado: 20 de Set de 2019

A Saga dos Vestidos de Madrinha - Pt. I


(continuação da crônica (2)7 Dresses)



...Eu reclamo, mas no fundo o vestido é uma das partes que eu mais gosto como madrinha! De alguma forma bizarra dentro da minha cabeça, os vestidos de madrinha são as materializações da preparação para eu estar lá, seja "lá" um altar, uma cadeira, um palco ou um cantinho na areia! É como se o pinicar das lantejoulas e o agarrar dos forros formassem uma retrospectiva sentimental super dinâmica dos dias entre o convite e a celebração. E, bom, vestidos costumam nos deixar bem bonitas e eu gosto dessa parte também...


No primeiro convite que eu recebi, eu fui madrinha do casamento da Mônica com o Darlan. Ela foi por muito tempo a cunhada da minha irmã do meio.


Minha irmã, no ápice da sua juventude, namorou por anos o Gê e eu me tornei muito próxima dele e da família dele, porque para o Gê e a minha irmã namorarem, minha mãe sempre me enfiava no meio. Minha irmã comentava sobre almoço de domingo na casa do namorado e lá estava eu com o meu tênis de plataforma pronta pra ir junto! Eu tenho histórias incríveis com a família do Gê e uma delas foi no casamento da Mônica - o mesmo que eu fui convidada como madrinha.


O vestido que usei eu havia comprado para outro casamento... O da minha irmã mais velha, mas que não ocorreu porque o noivo desistiu no dia da cerimônia (uma história por si só). É um vestido dourado bordado que eu tenho até hoje. Depois do não-casamento da minha irmã mais velha, eu o guardei e cheguei a cogitar a jogar fora porque eu não queria nada que me lembrasse do tal-dia-que-não-aconteceu, eu chorei mais do que ela (ao menos em público), mas foi a minha própria irmã mais velha quem me incentivou a guardá-lo para usar em um outro momento e ressignificá-lo.


E esse outro momento chegou e foi o casamento da Mônica!


A família do Gê já sabia do tal-dia-que-não-aconteceu e do vestido que eu nunca havia usado, e foi declarado que ele teria um novo significado ali, no casamento da Mônica e do Darlan - que eu cheguei bem em cima da hora da cerimônia.


Eu estava toda ofegante e não vi nenhum rosto conhecido, porque a maioria já estava à caminho do altar. Até que apareceu a Dona Maria, mãe da Mônica e do Gê [como eu queria ter escrito essa história antes...].


A Dona Maria era uma pessoa admiravelmente única. Era uma pessoa que você precisaria conhecer pra entender. Ela era firme, tinha um caráter inabalável, era fiel a si e a Deus, era generosa, compreensiva e ao mesmo tempo muito austera e resoluta. Ela sempre foi tão correta que eu sempre sentia receio de estar fazendo algo errado. Eu me preocupava com a opinião dela mesmo eu sabendo que pra mim ela era um exemplo exatamente por não se preocupar com a opinião de ninguém. Ela sempre foi muito boa comigo e nesse dia não foi diferente.


Uma moça X me perguntou onde estava o meu par.

Eu não tinha par.

A Moça X que organizava o casamento repetiu a pergunta "Com quem você vai entrar?".

Eu travei e ela continuou "Você não pode entrar sozinha. Você precisa de alguém pra entrar. Talvez seja melhor você ficar aqui atrás só olhando. Você tem certeza que é madrinha?".


Eu estava nervosa, completamente perdida, já tinha chego meio atrasada, não via um rosto familiar no meio daquela gente toda e eu decidi responder um "Tá bom." bem muxoxo, quando a Dona Maria apareceu. Ela surgiu do meio da multidão, ocupada como já estava sendo mãe da noiva, dizendo bem firme "Ela não está sozinha. Karen quem vai entrar com você?".


"Acho que ninguém, Dona Maria. Eu realmente não me importo de entrar sozinha ou de nem entrar se vocês acharem melhor..."


E a Dona Maria respondeu um pouco pra mim e um pouco pra Moça X:


"Você não está sozinha. Hoje, então, você está comigo. Qualquer coisa entramos juntas. Você não precisa de ninguém, nem pra isso nem pra nada. Ah, que bobeira!"


Não leia isso de uma maneira rude. Mas de uma maneira incisiva, mas humorada. Ela era reta, mas divertida. Direta, mas engraçada. Ela tinha uma feição tão marcante que é uma das poucas pessoas que eu vejo o rosto claramente quando penso em alguém, geralmente é só um borrão, mas dela eu me lembro tanto da cara enfezada quanto da sorridente.

Dona Maria era uma pessoa muito tradicional, poderia se esperar que ela quisesse que eu tivesse alguém do meu lado, "Par é par e não dá pra entrar sozinho." como disse a Moça X que organizava, mas a Dona Maria tinha a resposta certa quando eu mesma escolhi ficar calada "Convidamos a Karen e ela está aqui, não tem porque ela não entrar."


A Moça X que estava organizando devia ser de Virgem, porque ela ficou silenciosamente brava de eu ter quebrado a ordem do que estava planejado; eu não queria ter sido inconveniente, mas no fundo eu fiquei bem feliz. Eu realmente entenderia se eu entrasse sozinha ou se eu nem mesma entrasse, casamentos costumam ser um ritual metódico, por isso mesmo eu fiquei bem surpresa com a atitude da Dona Maria, que parecia ainda mais feliz do que eu com seu novo par e me disse pra não ligar pra Moça X:


"...Eu também ia entrar sozinha, não tem sentido o que ela disse, mas parece que Deus queria que entrássemos juntas. Eu ia entrar sozinha, você ia entrar sozinha e agora eu faço companhia pra você e você pra mim."


O que eu achava cósmico a Dona Maria tinha certeza que era Deus.


E assim foi a primeira vez que fui madrinha, com meu vestido dourado ao lado da Dona Maria, mãe da noiva, prestigiando a Mônica e o Darlan.


Um ano depois veio o casamento das minhas irmãs. Das minhas duas irmãs. A que não havia casado no tal-dia-que-não-aconteceu e da outra que quando criança ninguém nunca achou que casaria... Mas pra contar, antes eu preciso dormir, eu estou com muito sono e se eu continuar escrevendo a história vai sair tudo torta, mas volto em breve, porque eu estou mesmo muito emocionada de fazer parte da história de alguém, mais uma vez, quando ainda estou aprendendo a fazer parte da minha!



A qualidade dessa foto (e da nossa expressão) está muito abaixo da qualidade da emoção!


Eu, a sobrinha da Mônica, a Mônica e a minha irmã do meio no final da festa, quando a nossa fotogenia já havia se dissipado com os docinhos.




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[ADENDO:


Queria agradecer a Mônica e o Darlan pelo convite em seu casamento e, principalmente, por se lembrarem de mim e da minha família quando os nossos irmãos já nem estavam mais juntos.


Um obrigado mais atual para a Mônica, que sempre me ensinou sobre paciência e simplicidade e, agora, está fazendo companhia para a minha mãe lá na aula de costura que estão cursando juntas! Eu adoro quando duas pessoas que eu amo se encontram pelo acaso <3


E um obrigado tardio à Dona Maria por, entre tantas lições e companhia, ter me ensinado desde pequena que se alguém "não gostou de mim, tudo bem, eu não estou à venda".]

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