UM GOLE DO UNIVERSO

em crônicas

Em 2016 coloquei como uma das metas do ano "Aprender a fazer um bom nhoque", mas foi só no final de 2018 que finalmente fiz um nhoque com cara e sabor de nhoque. Um prato que eu pensei "Eu pagaria por isso em um restaurante. Não pagaria muito caro, mas pagaria". E considerando meus talentos gastronômicos, pra mim isso foi uma baita conquista, que só foi possível porque eu me empenhei muito mais do que nos anos anteriores. Em um mês eu fiz mais nhoques (e tentativas de nhoques) do que a soma de todas as tentativas dos dois anos anteriores. Eu aprendi empiricamente que a repetição constante é um importante hábito para aprendermos a fazer algo que exige técnica, tal como escrever... Que é uma das minhas metas de 2019 :)

  • Karen Harumi

6º Vestido

Atualizado: 25 de Set de 2020

A Saga dos Vestidos de Madrinha - Pt. VI


(continuação da crônica 5º Vestido)


[A história de como comprei o vestido de madrinha para o casamento da Bia Lena em Punta Cana é incrível, adoro contá-la, MAS EU NÃO AGUENTO MAIS FALAR DE VESTIDO. Nem eu achei que isso fosse possível.


Já tentei escrever umas 2983748329x e todas parecem que eu estou brava (e eu estou um pouco, mas não com a história).


Pra ajudar, ela é enorme.


Mas vou me esforçar mais uma vez porque eu estou tentando cumprir os desafios doidos que eu mesma me coloco e porque ela realmente merece ser contada:]


Pra conseguir comprar o vestido de madrinha do casamento da Bia Lena em Punta Cana, eu precisei de uma verdadeira força-tarefa de uma equipe dedicada e compreensiva que incluía gente que eu ainda nem conhecia.


Um mês antes de viajarmos para o casamento, eu ainda não tinha nada para usar. Tudo era ou muito caro ou muito feio ou os dois. Eu até havia tentado costurar algo, mas eu tive o bom senso de desencanar quando demorei duas semanas só pra tentar fazer o molde. "Tentar", porque depois eu descobri que estava tudo errado.


Era um assunto delicado. Era como tirar o pino de uma granada, se você não me jogasse longe eu começava a contar da vez que eu fui comprar e esqueci a carteira, ou a vez que a mulher tentou me forçar a comprar um vestido todo sujo de maquiagem e manchas suspeitas por R$ 800 À VISTA, dizendo que era uma pechincha, ou a vez que uma mulher teve a cara de pau de pegar o vestido que eu havia deixado no balcão enquanto eu procurava o cartão na bolsa e comprou na minha frente, entre outras histórias que estavam me fazendo acreditar que eu devia surpreender os noivos indo pelada.


Até que um dia a Bia Yumi comentou que iria acompanhar a Cintia, sua irmã, na José Paulino* e me convidou para ir com elas.


Ela sabia o quão orgulhosa eu estava sobre isso e teve toda uma técnica.


"A Cintia tá aqui em São Paulo! Dorme lá em casa com a gente, vai ser divertido! Ela veio pra comprar o vestido pro casamento da Bia Lena e outra amiga dela, é bom que você é toda estilosa e manja dessas coisas de roupa e pode ajudá-la a escolher... Aí, se der você pode até ver um vestido pra você também, né? E A GENTE PODE FAZER LIMPEZA DE PELE ANTES! Comprei uma máscara de argila sensacional!"


Parecia natural, mas a frase foi muito bem pensada e construída. Primeiro ela usou a irmã como isca, ela sabe como eu gosto da irmã dela. Depois ela me elogiou (quem não gosta de ser elogiado?) e me fez sentir útil - era como se eu estivesse fazendo um favor e, poxa, eu gosto de ser útil. Então ela jogou a mensagem principal, como quem não quer nada, e finalizou com o nosso maior fetiche do ano: cuidar da pele madura que a casa dos 30 nos deu. Foi infalível. Eu só percebi que fui ludibriada quando eu falei 'compra aquele modelo cheio de brilho e lantejoula' e elas ignoraram.


E como se ainda precisasse de mais, a Bia Yumi complementou:


"...E eu tenho um shampoo excelente pra você tirar esse óleo de coco do cabelo!"


Eu não pude negar.


Porque veja bem, essa conversa rolou durante uma festa de aniversário em que eu fui com o cabelo acidentalmente bezuntado de óleo de coco e que, junto da coloração verde que eu estava usando na época, me deixou igualzinho o Coringa do Heath Ledger.


Dormimos as três na casa da Bia Yumi e eu usei metade do pote de shampoo de 1L dela. Não tirou toda a oleosidade (era uma missão impossível), mas ajudou bastante na minha auto-estima.


Acordamos e o dia começou memorável quando o motorista do Uber perguntou como conseguíamos ter uma voz "tão calma, que traz paz"... Muito provavelmente ele disse isso porque eu ainda não havia começado a falar e seu elogio era direcionado pra Bia Yumi e principalmente pra Cintia, que fala com tanta tranquilidade que parece mesmo aquelas vozes de CD de mantra e quase dá pra ouvir o barulho de riacho no fundo quando ela começa a falar. No entanto, como eu estava junto delas e o motorista falou no coletivo, eu me incluí no elogio, que pra mim foi único.


Chegamos na loja e vimos um milhão de vestidos.


A atendente que nos auxiliou era maravilhosa, atenciosa, educada, divertida e sincera. Não era daquelas que diz que estamos lindas numas roupas que nos deixam tudo torta. E toda vez que ela ia me ajudar a compreender como fechar algum vestido eu contava pra ela sobre a minha família, minhas gatas, as cachorras da minha irmã, meus amigos, a Estátua do Borba Gato... E ainda me ouviu lamuriar sobre o meu cabelo enquanto eu pedia dicas sobre costura!


E MAGICAMENTE ENCONTRAMOS UM CAMPEÃO.


Um vestido com uns babados chacoalhantes que me faziam me sentir na praia sem nem mesmo ainda estar lá.


...Chegou a hora do pagamento e o vestido custava um bocado a mais do que eu podia pagar.


Tentamos tudo que é tipo de negociação já que levaríamos dois vestidos, o meu e o da Cintia, mas a gerente não nos deu muita bola.


E então, a Amanda, a atendente compreensiva, falou:


"Eu tenho 30% de desconto nos vestido daqui. Eu dou meu desconto pra você!"


"Você não pode dar o seu desconto para os clientes, Amanda."


(Pra falar isso a gerente nos deu atenção.)


"Na verdade ela é minha amiga! Eu não posso comprar com o meu desconto e dar de presente pra ela?"


(E a Amanda contou como éramos grandes amigas há anos...)


As duas foram prum canto e a Amanda voltou explicando que não tinha tido sucesso.


Apesar de tudo, eu já estava bem feliz de ter conhecido alguém tão gentil, foi mais do que eu havia ganho nas minhas outras tentativas de comprar um vestido. E quando já estávamos indo embora, a Amanda falou tão firme "Você vai conseguir esse vestido.", que eu acreditei.


E cara, até hoje eu me pergunto porque alguém desconhecido foi tão complacente, e eu não sei mesmo, mas foi assim que começamos os nossos planos mirabolantes.


A ideia inicial era deixar o dinheiro com a Amanda e ela compraria em seu nome e me entregaria na saída do trabalho. Tentamos naquele dia, tentamos em outros, mas sempre acontecia algo e eu comecei a desistir de novo.


Além disso, havia um medinho em mim de que tudo aquilo fosse um golpe e que eu estava sendo muito ingênua em acreditar na bondade alheia, afinal eu ia deixar uma grande quantia de dinheiro na mão dela e tinha que confiar que ela compraria o vestido e me entregaria. Tudo nela me passava confiança, mas ouvi de muita gente que eu estava sendo imprudente.


Dinheiro do qual nem meu era, era da Cintia, a irmã da minha amiga. A pessoa que eu ainda nem sabia o quanto ainda mudaria a minha vida e seria a minha principal companheira na viagem! Esse momento foi um prelúdio de outra história incrível, mas eu estava muito distraída e preocupada para perceber. Naqueles dias eu estava na base do cartão de crédito com tudo, mas o tal desconto era só pra pagamento em dinheiro.


Até que semanas depois finalmente os nossos planos mirabolantes pareciam que iam funcionar. Minha mãe e minha irmã queriam passear na Pinacoteca, perto da loja de vestidos, então íamos aproveitar pra deixar o dinheiro com a Amanda e eu a aguardaria sair do trabalho, enquanto via a exposição.


Era um plano simples, mas deu tudo errado.


Primeiro eu briguei com a minha irmã e nos desencontramos, depois com a minha mãe (que apesar de tudo me acompanhou por todo o resto do dia) e quando chegamos na loja, ela havia acabado de fechar.


Sentada na calçada, a Amanda me esperava e o altruísmo dela só crescia e me surpreendia mais. Ela me esperou para dizer que a loja havia fechado (coisa que eu teria visto de qualquer maneira, mas foi muito fofo ela ter eperado), estava com uma amiga do trabalho aguardando só a minha chegada para depois irem num bar - e eu que estava tão azeda, achei bem conveniente o convite delas para irmos juntas depois daquele dia horroroso.


...E com a interminável sequência de situações tensas e desagradáveis que haviam acontecido, eu fui surpreendida em como nas últimas horas do dia tudo ficou tão incrível!


Se eu falo demais, a minha mãe fala em dobro. Já estava até convidando as meninas pra nos visitarem em Lorena. Contou toda a minha infância com detalhes e criou uma conexão instantânea com a Leyd, amiga da Amanda, a ponto das duas se abraçarem e começarem a chorar de emoção. Não é exagero.


Tava todo mundo alegrinho e não era só por causa da cerveja.


Aquele dia sozinho dava uma boa história.


No final, deixei a Amanda com o dinheiro e combinamos de nos encontrar no meio da semana para ela me entregar o vestido - o que ela o fez quando passeamos pela Av. Paulista; e invadimos acidentalmente um coquetel de estréia de um livro acadêmico; e comemos todos os canapés; e fizemos várias poses intelectuais com taças na mão.


...Eu jamé imaginaria que a melhor parte do vestido do casamento da Bia Lena ia ser exatamente comprá-lo.


Mesmo eu tentando sempre praticar a gentileza que a Amanda me ofereceu, o mundo já me tombou tantas vezes que eu tenho um pouco de dificuldade em acreditar quando alguém é tão legal comigo. Mas é muita arrogância achar que o mundo todo foi corrompido, exceto eu e as pessoas bacanas que eu já conheço.


Eu fiquei feliz por mais uma vez eu ter confiado no lado bom de alguém, até então, totalmente desconhecido, e ter sido retribuída pelo acaso com uma amizade tão legal. Foram poucas as vezes que vi a Amanda, mas em todas elas eu aprendi algo gigantesco. Ela me apresentou uma nova realidade, reforçou minha fé nas pessoas e me fez admirar sua sede por cultura.


Ela é o tipo de pessoa que me faz acreditar que tudo na Terra tende a melhorar, mesmo a sociedade estando tão lenta no desenvolvimento de um pensamento mais coletivo.


Teve gente que contei essa história e disse que ela não fez nada demais, mas não é verdade. Isso é coisa pra caramba, exigiu pensamento rápido e uma sensibilidade que não se desperta instantaneamente, é algo que desenvolvemos com a vida. E sempre que eu conhecer pessoas assim, incríveis e gentis, vou fazer questão de contar pra todo mundo, sim! De bater palminha e sair cantando galo que eu tive a honra, de mais uma vez, cruzar com alguém tão bacana.


E é assim que eu (finalmente) encerro essa saga (dos Vestidos de Madrinha) tão grande quanto a luta do Goku vs. Freeza no Dragon Ball Z. Agradecendo à todos que me convidaram para ser madrinha, todos que me ajudaram a não ir pelada em nenhum casamento até agora e, nessa história em especial à Amanda, a minha Mãe, a Cintia e a Bia Yumi.


...É muito mais legal viver quando compartilho histórias com pessoas como vocês <3



[E em novembro, não percam a continuação em... O 7° Vestido]













Até a Amy, a irmã insensível da Rachel, sabe que 30% de desconto é coisa pra caramba!












Os paparazzi conseguiram registrar o exato momento em que eu agradecia o Oscar que a Bia Lena me deu usando um vestido cedido pela famosíssima Amanda Compreen Silva (ou Amanda Gene Rosa - não consegui decidir que sobrenome artístico dar)



Coringa & Cíntia





*Rua José Paulino é conhecida por ser cheia de lojas de vestidos de festa em São Paulo.



[ADENDO: Muito obrigada Bia Lena e Toto! Já fiz uma postagem toda de agradecimento hehe Então dessa vez vou parar por aqui!]

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