UM GOLE DO UNIVERSO

em crônicas

Em 2016 coloquei como uma das metas do ano "Aprender a fazer um bom nhoque", mas foi só no final de 2018 que finalmente fiz um nhoque com cara e sabor de nhoque. Um prato que eu pensei "Eu pagaria por isso em um restaurante. Não pagaria muito caro, mas pagaria". E considerando meus talentos gastronômicos, pra mim isso foi uma baita conquista, que só foi possível porque eu me empenhei muito mais do que nos anos anteriores. Em um mês eu fiz mais nhoques (e tentativas de nhoques) do que a soma de todas as tentativas dos dois anos anteriores. Eu aprendi empiricamente que a repetição constante é um importante hábito para aprendermos a fazer algo que exige técnica, tal como escrever... Que é uma das minhas metas de 2019 :)

  • Karen Harumi

O Mágico de Foz

Atualizado: 20 de Nov de 2019

[25° dia - Parabéns São Paulo!]


Os últimos dois dias foram como há muito tempo nenhum outro dia havia sido.

Vou começar por ontem*, o dia que cheguei em Foz do Iguaçu logo pela manhã.


Só a minha permanência na cidade já havia sido planejada pelo acaso: um voo cancelado me fez pernoitar aguardando o próximo voo. Mas o Acaso se mostrou o melhor agente de viagens que já conheci (e olha que eu trabalhei um bom tempo nessa área) e fez um planejamento para o dia inteiro. O Acaso é o grande Mágico de Foz que, muito melhor que o de Oz, me levou exatamente para onde eu queria e ainda me trouxe coragem, amor e intelectualidade.


Tão logo eu soube que passaria uma noite aqui decidi que aproveitaria para ver as Cataratas do Iguaçu e considerei a ideia de ir lá na Ciudad del Este, na fronteira com o Paraguai, mas logo descartei, principalmente quando o taxista que me levou ao hostel me respondeu com muita ênfase “[...] Só vai compensar você ir para o Paraguai se conseguir arranjar um motorista particular que conheça por lá! Senão você vai se perder ou jogar dinheiro fora comprando coisa que não presta. Mas esse tipo de serviço não sai por menos de R$150, isso só a ida! E se você for de ônibus vai ficar uma eternidade no caminho, não vai voltar a tempo de ir nas Cataratas.”


R$150 é muito para mim, ainda mais uma versão minha sem planejamento.


Pois chego no hostel, guardo minhas malas num cantinho e por desencargo de consciência eu resolvi perguntar para o recepcionista, já esperando uma resposta muito parecida com a do motorista, que foi muito parecida com a de outras pessoas:


“Você acha que dá tempo de eu ir no Paraguai antes de ir nas Cataratas? É perigoso eu ir sozinha?”


E foi quando ele me contou que ali ao lado estava um casal combinando com o motorista do hostel de ir ao Paraguai naquele instante.


“Talvez você possa ir com eles...”


Então eu vi o casal e o motorista lá fora papeando.


“Eles estão esperando algo?”

“Você!”

"SÉRIO?!?! Mas como eles já sabiam que eu ia querer ir junto também?”

“É brincadeira, eles ainda não sabem. Mas é uma grande coincidência, não é? Eles já estão de partida e voltam no horário do almoço, que dá tempo certinho pra ir pra Cataratas. E se precisar de ajuda, o motorista conhece bastante coisa por lá e vai ficar com vocês até voltarem. Pareciam estar te esperando. Você chegou na hora certa, está com sorte!”


E eu realmente estava!


O recepcionista me apresentou às pressas aos três e perguntou se eu poderia acompanhá-los ao Paraguai e minutos depois estávamos todos fugindo das motos sem lei nas ruas de Ciudad del Este, juntos!

Torrando juntos!!

Pesquisando preços juntos!!!


Eles foram muito amáveis e gentis e parecíamos amigos de longa data e, digno de menção honrosa, eles tiveram toda a paciência do mundo comigo, fomos em 827.346 lojas até encontrar o que eu realmente desejava: o teclado que estou usando agora para escrever isso no IPad.

Como eu saí nas pressas, não deu tempo de sacar nem nada e foi só quando eu já estava no caixa, e o meu cartão simplesmente não ia, que percebi que levei toda aquela trupe numa jornada inconclusiva. Era como se eu tivesse realizado toda a fase de um jogo e ao chegar na cena final eu descobrisse que o botão "X", que abriria o baú, estivesse quebrado.


A moça do caixa continuava da sua maneira fria dizendo "Sem pagar você não pode levar", o que eu já sabia, mas o que eu não sabia é porque eu não estava conseguindo pagar. Eu jurava que tinha habilitado para compras internacionais, mas a internet e o telefone não funcionavam para que eu pudesse checar. Eu estava ali pensando no que dizer para aquele Casal que havia passado as últimas horas ao meu lado me ajudando a buscar algo que já era inalcançável antes mesmo de eu achar que poderia não encontrar quando ela, a Moça do Casal, disse "Quer que eu passe no nosso cartão?"


Isso mesmo! Eles se disponibilizaram solidariamente a emprestar o cartão já que o meu não estava indo de jeito nenhum e o Wi-Fi não colaborava para me ajudar ver o que ocorria.


SSSSSIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIMMMMMMMMMMMM!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!


Eu os havia conhecido há menos de duas horas e sabíamos quase nada um dos outros, nem mesmo o nome, já que nos chamávamos de Casal, Velho e Menina e, ainda assim, eles já estavam me emprestando o cartão para compras internacionais com um valor relativamente alto!!!!


Eu pensei em falar pra eles “Vocês não têm medo de eu ser uma golpista?”, mas achei melhor apenas agradecer e pagar, claro. E voltei incrédula com a grande quantidade de coincidência e gentileza que eu presenciei em um único dia!


Isto porque houveram outras pequeniníssimas coincidências que em um dia normal teriam me passado batido, mas ontem tudo parecia mágico. Em especial uma menininha paraguaia linda, com dois coquinhos no topo da cabeça, como a Chun Li, que apareceu com balas na mão. Ela veio apontando para a bolsa que eu abraçava e gritou “Cocodrilo!”.


Essa bolsa sempre me rende boas histórias.


Conversamos e ela foi muito amável, principalmente quando eu disse que não poderia comprar suas balas, porque foi quando ela disse que não queria minha plata e tempos depois pediu um beijo e um abraço. Tem algo mais amável do que alguém que quer seu afeto ao invés do seu dinheiro? Eu meio que abraço e beijo todo mundo e tudo que é bichinho que cruza meu caminho, mas ela fez parecer que era algo bem grandioso.


Ela riu e eu ri.

Ela teve que ir e eu fui pouco depois.


Com tempo de sobra, vi as Cataratas maravilhada com uma paisagem tão bem construída coletivamente: cada gota d’água, cada folha, cada ser vivo com sua própria nota ajudando a formar um som tão poderoso.


Tudo havia saído como planejado pelo Acaso: um dia incrível.


De volta no hostel, antes de me deitar, resolvi anotar tudo isso e fiquei na beira da piscina tentando me lembrar do que havia ocorrido até então. Uma moça se sentou na mesma mesa que eu, com um tabuleiro de xadrez com o jogo em andamento, mas completamente sozinha.

Achei aquilo misterioso e intelectual demais.


Conversamos muito brevemente porque o sono chegou antes do fim das minhas anotações. No dia seguinte acordei bem cedo para deixar tudo em ordem para pegar o voo que eu ainda não sabia que também seria cancelado, mas tudo bem, serviu para que eu estivesse na hora certa no café-da-manhã.


Fui a primeira a chegar no espaço do café, fiz meu sanduíche da forma que gosto: duas fatias de queijo para uma bem fina de presunto. Tostei.


As pessoas foram chegando e pouco depois lá estava a moça misteriosa do xadrez. Ela se sentou novamente na minha mesa e finalmente nos apresentamos, conversamos sobre onde éramos, nossas ancestralidades, alguns lugares do Brasil que ela ainda visitaria e tentamos descobrir qual seria o nome em inglês do livro A Morte e a Morte de Quincas Berro D’Água que eu estava indicando (deixo aqui indicado também!). Meu lanche já tinha acabado e o dela também, quando ela falou:


“Eu estava pensando em comer outro lanche, mas não sei se aguento um inteiro.”

“Pensei a mesma coisa...”

“Perfeito! Então podemos dividir um, o que acha?”


Eu aceitei, era a quantidade ideal que eu desejava.


“Tudo bem se eu colocar duas fatias de queijo e uma de presunto?”


Claro que eu concordei! Ela havia lido a minha mente, eu me empolguei!

Ali havia uma sincronia entre nós, as atrizes, e o roteirista daquela cena.


Tirei até foto do pão e contei como havia sido o dia anterior e como eu estava escrevendo um livro sobre essas coincidências que parecem tão bobas e... São mesmo, mas eu gosto.


“Que interessante! Você estava escrevendo um livro. Ontem fiquei observando você escrevendo ali... Você olhava pra cima e depois olhava para baixo. Achei aquilo misterioso e intelectual e pensei 'Seria ela uma escritora?' e então eu estava certa: você é uma escritora.”


[Adendo: não é o máximo que ela tenha pensado de mim o que eu havia pensado dela? Sobre ser misteriosa e intelectual...? Não falei nada em voz alta porque achei que ela me teria como louca e também porque havia algo ainda mais importante para ser dito...]


“Sim, eu... Eu sou.”


E essa foi a primeira vez que eu aceitei em voz alta quem eu sou.


Até pouco tempo atrás eu falaria que o Universo conspirou para que tudo me trouxesse alegria (bom, tirando os pernilongos) em Foz do iguaçu, mas hoje eu vejo toda a situação de maneira mais ampla. Hoje me parece muito pequeno pensar apenas em mim. O mundo é muito maior do que servir a minha vida, mas ainda assim, é uma honra viver esses dias. E foi isso que escrevi no meu diário quando cheguei ao hostel.




O tamanho perfeito

(até a maneira como foi cortado!)



*Ontem, na verdade, é anteontem. O texto foi escrito dia 24.01.19, mas por falta de internet só consegui postar hoje, 25.01.19.

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