UM GOLE DO UNIVERSO

em crônicas

Em 2016 coloquei como uma das metas do ano "Aprender a fazer um bom nhoque", mas foi só no final de 2018 que finalmente fiz um nhoque com cara e sabor de nhoque. Um prato que eu pensei "Eu pagaria por isso em um restaurante. Não pagaria muito caro, mas pagaria". E considerando meus talentos gastronômicos, pra mim isso foi uma baita conquista, que só foi possível porque eu me empenhei muito mais do que nos anos anteriores. Em um mês eu fiz mais nhoques (e tentativas de nhoques) do que a soma de todas as tentativas dos dois anos anteriores. Eu aprendi empiricamente que a repetição constante é um importante hábito para aprendermos a fazer algo que exige técnica, tal como escrever... Que é uma das minhas metas de 2019 :)

  • Karen Harumi

Re-lição

Quando postei o conto Revelação no Instagram comentando que aquela era uma história sobre felicidade, de como ela é simples e que isso era algo que eu estava quase me esquecendo nesses dias de quarentena, essa frase veio certeira em forma de comentário...


"É proibido esquecer as lições do universo"


Vindo de uma pessoa conhecida, eu li com voz e rosto.


...E respondi sem orgulho nenhum que essa é uma regra que vivo quebrando. Vira e mexe eu encontro diários e cartas de 2003 falando com propriedade sobre aprendizados que hoje eu me pergunto "Como? Quando? Por quê?".


"Mas [pra minha sorte] a vida se encarrega de nos lembrar" dessas lições, como ela mesma disse.


O que nos é importante, mesmo quando esquecido, pode ser reaprendido.


Me lembro disso sempre que cometo algum erro que eu jurava que não iria cometer de novo.


E então, dias depois quando escrevi e postei sobre o bilhete da marmita que o meu pai havia me deixado na cozinha e o que eu havia aprendido com aquele sutil ato de amor [no dia eu ainda não me lembrava, mas] eu estava só escrevendo sobre uma lição que eu já tinha aprendido a quase exatos quatro anos antes em um dos meus sonhos favoritos [SIM, EU TENHO 873.894.973 SONHOS FAVORITOS, não sou do tipo de pessoa que oferece favoritismo para poucos]. Um sonho em que eu conversava filosoficamente com a Banana, minha gata tricolor - o que por si só já é um "sonho realizado" [eu ia acrescentar a palavra "literalmente", mas acho que nesse caso não cabe, porque o sonho em si aconteceu, mas a conversa infelizmente é só da minha cabeça mesmo].


Contextualizando:


A Meia-Noite, minha gata preta, anda extremamente parceira nessa quarentena. Não me deixa sozinha nem nos momentos mais íntimos. Banhos e tensão de dor de barriga são espetáculos que ela assiste na primeira fila. Nada a constrange. Talvez seja vingança por todas as vezes que eu vou lavar a roupa na área em que fica a caixinha de areia. Talvez ela esteja apenas se certificando que vou sair do banheiro viva, já que é o cômodo em que eu mais caio. Mas enfim. Ela fica quase o dia todo deitada ao meu lado enquanto trabalho e ao menos uma vez por dia eu paro pra observá-la dormir e ficar embasbacada que hoje ela vem, cotidianamente, pedir carinho na barriga e me fazer companhia, quando, há alguns anos eu mal a via mesmo compartilhando a mesma casa.


Estamos juntas desde o Dia das Bruxas de 2013 [agora eu já quero contar a história de como a conheci, MAS CALMA, KAREN! UMA HISTÓRIA POR VEZ E SÓ ATÉ AQUI VOCÊ JÁ CONTOU TRÊS] e até 2017 eu devo tê-la visto umas 10x no máximo.


Eu colocava comida e trocava areia quase que para um gato invisível. Às vezes se passavam dois ou mais dias em que eu não a via e só ouvia seu miado de dentro do guarda-roupa. Já cheguei a me perguntar se ela era produto da minha imaginação. Um acesso de loucura e solidão. Inclusive [eu vou ter que contar essa quarta história...], num dia que escutei um miado dentro do guarda-roupa, atrás da porta-espelho, eu comecei a falar "Eu te amo! Te amo tanto sua coisa linda! Você sabia que você é a coisa mais linda do mundo? É sim! Sua fofurinha!" quando fui surpreendida pela Dani, minha antiga companheira de lar que com um olhar que só ela sabia fuzilar soltou um "Nossa. Um dia quero ter a auto-estima igual a sua!". Eu ali, de frente pro espelho com aquela voz involuntária que a gente acha que é fofa, mas que no fundo daria medo em qualquer criança acima de dois anos, não sabia onde enfiar a cara. Rimos disso por muitos dias e foi pouco depois dessa situação, em 2016, que o sonho veio.


Oficialmente eu estava deitada no sofá, mas no sonho eu estava deitada na grama de um campo grande cercado por árvores. Lembra uma parte específica do Parque Ibirapuera que sendo bem sincera eu não vou saber descrever agora. Era de noite [tanto no sonho quanto na realidade] e a Banana estava deitada comigo [também, tanto no sonho quanto na realidade] e então começamos a conversar [isso, infelizmente, só no sonho].


Dessa parte não me lembro de nada que foi dito, mas em um certo momento a Meia-Noite surgiu dirigindo um rolo compressor. Eu e a Banana, no impulso, subimos em nossas bicicletas (a dela não era pequena, como ela, era uma versão adaptada com um guidão enorme e pedais compridos e na verdade a Banana parecia um pouco uma integrante da Carreta Furacão) e começamos a fugir. Corríamos em círculo pelo campo e quando eu já me sentia exausta eu falei que precisava parar. Que eu ia desistir. E me joguei no chão, deitada, como antes. E quando achei que a Meia-Noite iria me nivelar com a grama, ela parou e desceu do rolo compressor toda saltitante, miando, pulando, como das poucas vezes que eu havia a visto. Brincando como um gato, que é bem o que ela é, até que ela se deitou do meu lado.


Na época eu era muito encucada por nunca ter ouvido a Meia-Noite ronronar. Hoje, mesmo que baixinho, às vezes ela ronrona só de olhar.


Eu fiquei sem entender e foi preciso a Banana me explicar.


[Na época eu anotei o que eu me lembrava do diálogo em algum lugar que, hoje, eu não encontrei, mas era mais ou menos assim:] "Ela só estava brincando! Cada um ama do seu jeito. Eu ronrono e me esfrego na sua cara. E ela, só de se deitar ao seu lado, já está mostrando que confia em ti. Dê tempo pra ela se expressar. Dê tempo pra você entendê-la."


Todo mundo sabe que a Meia-Noite pira num carinho da barriga, é um fato tão conhecido atualmente, até entre meus amigos, que é até esquisito lembrar de uma época em que eu não sabia por onde começar. Que eu não entendia porque ela tinha pavor de eu relar em suas orelhas quando a Banana gostava tanto. Pra saber saber onde fazer carinho na Meia-Noite é só se lembrar da onde a Banana odeia, e vice-versa. Elas são bem opostas nesse sentido.


Lembro ainda que perguntei porque a Banana falava, mas a Meia-Noite continuava só a miar...


"Abri uma exceção... Mas talvez nem todos sejam tão inteligentes como eu."


E acho que teve mais coisas, mas eu me concentrei nessa parte. No diálogo que agora eu nem me lembro muito bem. Na lição que eu fui reaprender com o bilhete do meu pai anos depois: o amor nem sempre é expresso em palavras. É algo que a gente só sente e que cada um traduz de maneira diferente.


EU SEI, EU SEI. Foi só um sonho.


Isso não quer dizer que as minhas gatinhas me amam. Nem a que fala, nem a que só mia.


Talvez a Meia-Noite esteja aqui deitada do meu lado, agora, só por um dever cósmico de equalizar as minhas energias paradas. Talvez seja por frio (eu mesma estou debaixo de 2 cobertores). Talvez ela seja como eu, que quando bate o sono dorme sem nem ver onde.


Maaaas...

Seja loucura ou carência, preciso confessar que é inevitável ver ela deitada aqui na cama, grudada na minha perna, e não me sentir amada.


Meia-Noite dormindo ao meu lado, cansada de equalizar minhas energias

(claramente porque me ama, não porque é quentinho)



"Meia-Noite, vamos nos comunicar por olhar:

se você me ama me olha agora.

Agora, Meia-Noite! Aqui! AQUI, MEIA-NOITE! AQUII, Ó!

ISSO, ISSO MESMO, IIIIISSO, OLHA AQUI! AQUIIIIIII!

IIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIIISSO MEU AMOR! Eu também te amo!"

10 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Solidão