UM GOLE DO UNIVERSO

em crônicas

Em 2016 coloquei como uma das metas do ano "Aprender a fazer um bom nhoque", mas foi só no final de 2018 que finalmente fiz um nhoque com cara e sabor de nhoque. Um prato que eu pensei "Eu pagaria por isso em um restaurante. Não pagaria muito caro, mas pagaria". E considerando meus talentos gastronômicos, pra mim isso foi uma baita conquista, que só foi possível porque eu me empenhei muito mais do que nos anos anteriores. Em um mês eu fiz mais nhoques (e tentativas de nhoques) do que a soma de todas as tentativas dos dois anos anteriores. Eu aprendi empiricamente que a repetição constante é um importante hábito para aprendermos a fazer algo que exige técnica, tal como escrever... Que é uma das minhas metas de 2019 :)

  • Karen Harumi

Paradoxo Massimo

Atualizado: 25 de Set de 2020

Há uns dias atrás* eu tive um dos meus mais complexos sonhos de toda a vida.


Foi bem vívido.


Vou tentar resumir e pular alguns detalhes que talvez confundam a narrativa porque pareciam bem nada a ver com o restante da história.


Eu não lembro muito bem como começou, mas em um determinado momento do sonho eu estava sentada na calçada (de como eu imagino que deva ser) do restaurante Osteria Francescana, do chef Massimo Bottura.


Pra quem não conhece [...que nem eu mesma! Às vezes eu me esqueço que eu também não conheço exatamente por causa desse sonho que me faz achar que eu conheço...], a Osteria Francescana é um restaurante em Modena, na Itália, e possui três estrelas Michelin. Em vários anos ganhou como um dos melhores e mais de uma vez, como o melhor restaurante do mundo.


Continuando...


Eu estava lá, sentada na calçada esperando algo que, na minha cabeça, eu já sabia que aconteceria, como se eu já tivesse observado aquela rotina antes: eu esperava os cozinheiros do restaurante descartarem os restos de comida dos pratos de lá. Não dos ingredientes, mas dos pratos preparados mesmo.


Pois é.


A surrealidade do sonho já começa aí, porque acho extremamente improvável que tenham muitas sobras dos pratos do Osteria Francescana, porque não é bem o lugar mais barato do mundo.


Era de dia, meio da tarde, o restaurante tinha acabado de encerrar o serviço do almoço (eu nem sei se lá abre na hora do almoço), e a coisa ficou ainda mais surreal quando o próprio Massimo Bottura deu as caras no fundo no restaurante pra jogar os restos fora.



Ele chegou de bicicleta de algum lugar que não era de dentro do restaurante, tipo uma mini-floresta que havia no "quintal", segurando saquinhos de supermercado amarrados como lixo que ele deixou num canto e veio conversar comigo quando me viu abrindo saquinho por saquinho escolhendo o que dava para comer e tirar fotos com um celular.


Mesmo num sonho isso era estranho para o Massimo, que veio perguntar o que eu estava fazendo...


Eu expliquei na maior naturalidade que queria experimentar a comida de lá desde que havia visto o programa Chef's Table no Netflix, para saber como é e contar para os meus amigos.


Eu só queria falar para as pessoas que eu comi a comida do Massimo Bottura, mesmo sendo do lixo.


...Até nos meus melhores sonhos eu não tenho dinheiro e estou buscando aprovação social.


"Mas por quê, querida?" Ele falava um português perfeito (ou alguma língua dos sonhos que eu compreendia) e soltava uns "querida" sem nenhuma ironia.


Ele me perguntou porque eu não apenas tirava foto com o restaurante de fundo e deixava a informação subentendida nas redes sociais, ele até se voluntariou para tirar a foto. Eu não iria precisar comer o lixo.


Ele não me entendia.


Eu não queria mentir.


Eu realmente queria saber a experiência de comer a comida de lá, mesmo que de forma alternativa. Ninguém precisava saber que veio do lixo, isso era só um detalhe, mas pra falar que eu comi uma coisa que eu não comi, seria melhor nem falar nada.


"Qual a graça de me gabar por algo que eu não fiz?"


Pra ele continuava não tendo sentido.


Ele tinha um passarinho no ombro e até o passarinho me olhou confuso chacoalhando a cabeça.


Foi aí que ele me lançou uma proposta.


Ele cozinharia para mim, somente pra mim, ali, na hora. Eu entraria no restaurante, sentaria na mesa que me apetecesse, comeria qualquer coisa que eu quisesse experimentar, na quantidade que eu desejasse, sem pagar. Tudo isso com uma condição: eu não poderia contar pra ninguém. Depois de uma negociação emotiva, ele considerou talvez me deixar contar pra minha mãe e as minhas irmãs, ao vivo. Somente ao vivo. Talvez. Mas eu não iria poder tirar fotos, gravar videos, postar em redes sociais ou escrever sobre nada do que acontecesse, e olha que eu falei pra ele que essa era a minha forma de recordar dos momentos.


"Querida, você quer realmente comer a minha comida ou apenas se lembrar no futuro que um dia comeu a minha comida?"


(E a minha surpresa ao acordar, que depois de um tempo acordada refletindo eu pensei que não era tão surpreendente assim, foi que) Eu travei para decidir. Por mais óbvio que fosse uma oportunidade única, imensurável, eu fiquei um tempão olhando & pensando...


"Do que adianta viver um momento se não for para lembrar?"


Às vezes eu tenho um pouco de vergonha do meu eu do sonho, tenho vergonha quando penso que esse deve ser o meu eu-inconsciente. Tenho ainda mais vergonha quando penso que esse também deve ser o meu eu-consciente, porque eu tenho mais medo do Alzheimer do que de qualquer outra doença.


Eu precisei acordar para me responder isso, mas mesmo com a dúvida no sonho eu escolhi instintivamente comer. Eu sabia que essa era a decisão certa, mesmo que eu ainda não conseguisse me responder a razão. Até porque eu estava com muita fome.


No meu sonho, do lado de fora o restaurante tinha apenas um piso, era como uma casa, numa rua antiga de paralelepípedos, bem arborizada, com uma pequena porta de madeira na entrada e um portão de ferro onde ficava "os fundos" do restaurante, onde eu vasculhava os saquinhos e da onde o Massimo surgiu da mini-floresta, que era como um quintal do restaurante.


Mas quando entramos o restaurante tinha dois pisos, na parte de baixo, na cozinha, era tudo de concreto, bem acinzentado, parecia um bar moderno de Pinheiros. Na parte de cima parecia um hotel que eu adorava quando eu trabalhei em uma operadora de turismo: a Giraffe Manor, no Quênia. As paredes eram amarelas e tudo era muito iluminado, cheio de janelas.


Eu o vi cozinhar e conversávamos na maior brotheragem, parecia que eu estava na casa do Coxinha, do Seiichi ou da Bia Lena quando eles cozinham. Era tudo informal e divertido e eu estava ansiosa para comer e mais ainda para memorizar tudo. Eu contei várias histórias e ele tinha a paciência que só (alguns d)os meus amigos e a minha mãe parecem ter, então eu me afeiçoei muito por ele. Eu repetia pra mim mesma, como em uma lista suspensa no ar, tudo o que eu desejava lembrar daquela tarde para depois pelo menos tentar anotar em algum diário que ninguém fosse ver.


E veio o tão cobiçado momento da degustação...


Eu me sentia incrível por estar vivendo aquilo. Eu estava feliz, achava o meu ápice social que eu e o Massimo conseguíamos conversar sobre os assuntos mais aleatórios e no final eu ainda provaria algo não só feito por ele, mas feito para mim. E a essa altura do sonho, ele já sabia sobre todas as minhas preferências alimentares, incluindo pipoca com queijo. Eu pensava "Tomara que o prato não seja pequeno, pra que eu possa morder várias vezes e mentalizar o sabor pra não esquecer". Pra mim, nunca tinha sido uma experiência apenas de comer, mas sim de lembrar. Eu ainda nem sabia o sabor que teria, mas a ansiedade já temperava o prato. E antes de saciar o meu paladar, achei importante admirar visualmente a arte que eu sabia estar presenciando e com os olhos fechados, abrindo-os lentamente, eu levantei a cloche...


E foi então que uma girafa apareceu pela janela e comeu o meu prato. Não só a comida do prato, o prato todo. Em uma cena igualzinha a foto de divulgação do Giraffe Manor que eu tenho na mente quando lembro deste lugar.


...E eu acordei sem saber o sabor, mesmo que imaginativo, do prato do Massimo Bottura. Acordei tão arrasada que eu não lembro nem o que ele tinha me preparado...


Eu acordei mesmo. Eu não lembro se teve algo mais depois da girafa gulosa, egoísta e indelicada.


E todos os meus sonhos são assim, possuem um fim sem sentido ou às vezes são interrompidos do nada, isso quando eu não acordo no susto e não consigo me lembrar do que aconteceu.


Acordei achando o Massimo um máximo mesmo, todo humildão me fazendo refletir; até eu me tocar que esse Massimo era só um produto do meu inconsciente - que continua formulando dúvidas sobre a vida em narrativas vívidas, confusas e sem fim em um mundo paralelo onde há girafas na Itália e em que eu quase provei a comida do Massimo Bottura.


E o sonho em si teve um final meio decepcionante pra mim, mas a reflexão tem (ainda) um gosto inesquecível: Quando foi que eu passei a hesitar de viver experiências só porque muita das vezes é impossível registrá-las e compartilhá-las?


Massimo achando graça na girafa gulosa e eu mais preocupada em tirar foto


Inclusive, acabei de notar com essa foto que o Giraffe Manor tem as paredes verdes e não amarelas como eu me "lembrava"

(esse é o nível de quão bom é a minha memória)





Indicação: Além do episódio do Massimo Bottura na série documental Chef's Table na Netflix que (eu acho) que inspirou o meu sonho, indico também outro documentário que assisti recentemente** na mesma plataforma, o "Massimo Bottura - Teatro da Vida", e que apesar do nome (bem nada a ver), quase não fala dele, o que no final eu achei bem legal. A filmagem mostra superficialmente a execução do seu projeto de um refeitório social que oferece experiências com o uso consciente e refinado de alimentos descartados da EXPO 2015, refeições preparadas por grandes chefs do mundo, dois deles aqui do Brasil - David Hertz e Alex Atala :)


Não é um documentário sobre o aproveitamento máximo dos alimentos, nem sobre a execução do projeto em si - como eu imaginei no começo. Apesar de falar sobre ambos os temas, é um documentário social que fala sobre relações. A relação entre as pessoas, a relação das pessoas com suas próprias histórias, a relação das pessoas com a comida. Conhecer um pouco da história dos frequentadores foi o que mais me fez gostar muito de assistir. Achei que seria algo semelhante ao episódio do Eleven Madison Park da série documental Reta Final (7 Days Out), que eu gosto muito, mas foi bem diferente. Eu pensei que aprenderia mais sobre comida, mas aprendi mais sobre pessoas.





*Há uns dias atrás = Uns dois meses. Sonhei e escrevi isso em setembro.

** Recentemente = Segunda-feira, 11 de novembro de 2019.

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