UM GOLE DO UNIVERSO

em crônicas

Em 2016 coloquei como uma das metas do ano "Aprender a fazer um bom nhoque", mas foi só no final de 2018 que finalmente fiz um nhoque com cara e sabor de nhoque. Um prato que eu pensei "Eu pagaria por isso em um restaurante. Não pagaria muito caro, mas pagaria". E considerando meus talentos gastronômicos, pra mim isso foi uma baita conquista, que só foi possível porque eu me empenhei muito mais do que nos anos anteriores. Em um mês eu fiz mais nhoques (e tentativas de nhoques) do que a soma de todas as tentativas dos dois anos anteriores. Eu aprendi empiricamente que a repetição constante é um importante hábito para aprendermos a fazer algo que exige técnica, tal como escrever... Que é uma das minhas metas de 2019 :)

  • Karen Harumi

Banana e o Vizinho (e a Vizinha do 12)

Depois de sermos enroladas por algumas pessoas, eu e minha irmã resolvemos que conseguíamos colocar sozinhas a rede de proteção em nosso quintal para que as minhas duas gatinhas, Banana e Meia Noite, pudessem usufruir daquele espaço também. Morávamos no térreo de um prédio e o nosso quintal dava para os quintais de outros três apartamentos. Colocamos a rede como um teto. Estávamos orgulhosas do resultado principalmente porque não foi tão fácil colocá-la quanto havíamos imaginado.


Como não tínhamos escadas tivemos que escalar o muro e ficar nos segurando por pregos. Foi um pouco perigoso, na verdade. A nossa logística não foi das mais bem elaboradas, mas a rede parecia segura. Abrimos o quintal para as gatinhas e elas estavam muito felizes!


Ficamos lá fora um tempo e elas pareciam ter aprovado a nossa ideia e a eficiência do nosso serviço.


Mas infelizmente foi a pior ideia que tivemos.


No dia seguinte, passeei e voltei.

Abri a porta e já ouvi miados eufóricos vindo do quintal. Peguei a Meia Noite, a menor das gatinhas, tomando banho de lua em cima da rede. Fiquei quase a noite toda tentando descobrir onde estava o buraco e como pegá-la. Não havia ração, miado falso ou palavras de amor que a atraíssem. Tive que esperar o cansaço dela e a minha exaustão para tirá-la dali.


Mas de todos os males o menos pior, né?

Beleza, fechei o buraco (ou assim pensei).


No dia seguinte, trabalhei e voltei.

Abri a porta e não ouvi nenhum miado eufórico e achei que era um ótimo sinal, olhei lá fora e não havia gato algum na rede.


Na verdade, não havia gato algum em lugar nenhum.


Primeiro procurei racionalmente pelo apartamento.

Depois procurei desesperadamente pelo apartamento.

Toquei a campainha dos vizinhos que compartilhavam o quintal sem sucesso, nem mesmo chamando o síndico. Perdi muito tempo nessa parte da busca e resolvi que era hora de sair batendo perna.


Voltei para o apartamento para colocar um casaco e a Meia Noite miou lá de cima do guarda-roupa dentro de uma mala de viagem. Baita alívio!


Esperei um pouco a outra gatinha, a Banana, também aparecer de algum lugar inimaginável. Mentalizei que ela aparecia de vários lugares. Depois mentalizei que ela não aparecia desses mesmos lugares (porque muitas vezes o que eu desejo acontece ao contrário). Mentalizei, inclusive, que a técnica de mentalizar funcionava. Mas nada. Fui para a rua.


Miei, falei “Banana”, falei todos os outros 29 apelidos que ela tem, andei quadras pra lá e pra cá até desistir pelo dia e chorar.


Naquela noite a Meia Noite, que geralmente dormia em algum buraco desconhecido da casa, dormiu comigo, não sei se ela sabia que eu estava triste ou se era só pelo espaço vago que a Banana deixou. No dia seguinte, no trabalho, eu não me concentrava. Pensei nos planos de busca que eu colocaria em prática quando voltasse para casa, mas por sorte nem precisou!


De noite a minha irmã concretizou uma das minhas mentalizações: ela enviou uma mensagem com a boa notícia, “Acharam a Banana 😉”.


Na última hora do dia cheguei ao apartamento e a minha irmã explicou que haviam deixado um recado em nossa porta. Era a Vizinha do 12. No recado dizia que vizinhos de uma casa em frente ao nosso prédio haviam encontrado um gato e estavam procurando o dono. A Vizinha do 12, sempre onisciente e onipresente, logo concluiu que só poderia ser a minha gata perdida. Eu não havia compartilhado com ela o sumiço da Banana, mas nunca fiquei tão feliz por ter uma vizinha tão integrada da minha vida.


Ainda era bem cedo quando peguei o recado na porta e olhei a numeração da casa onde estaria a Banana. Era exatamente em frente ao prédio que eu morava, só precisei atravessar a rua. Fiquei espantada que eu morava ali há um tempo e nunca havia notado que havia uma casa logo em frente e me senti a pessoa mais desligada do universo. Inclusive eu passei por essa casa procurando a Banana e não vi!


Fiquei pensando quantas vezes o que eu procurava estava bem na minha frente, mas por distração eu não percebi.


Acima do espanto eu estava ansiosa: parei em frente ao portãozinho, respirei e apertei a campainha. Reparei que havia ali dois gatinhos tomando sol na varanda, tinha alguma coisa de paz naquela cena que era muito fofo. Os gatinhos tranquilos, esparramados pelo chão, sem rede, sem muros altos. Bateu uma sensação de interior que raramente sentia na capital, uma tranquilidade. O tempo parecia mais lento, como sempre acontece quando estou em Lorena, mas quase nunca acontece em São Paulo. Isso me acalmou um pouco.


Apertei a campainha novamente, mas nenhum sinal de que havia alguém na casa. Esperei e nadica de movimento. Apertei mais uma vez e, aleluia!, saiu um senhor pela porta. Dei “oi” e ele ficou só olhando. Vou deixar aqui um parágrafo do silêncio que se seguiu:


_________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________.


Eu fiquei esperando alguma resposta, reação, interjeição, aceno ou mesmo ele se aproximar, porque da porta até o portãozinho tinha toda uma varanda de distância. Mas ele continuou parado do mesmo jeito de quando abriu a porta, olhando.


Fiquei meio sem graça pensando que se eu já tivesse falado logo depois do “oi” talvez não fosse tão estranho, mas eu não falei então só foi piorando. Minha brilhante ideia foi repetir o “oi” porque pensei que ele podia não ter me escutado, mas ele continuou me olhando. Quando eu vi que outro silêncio ia começar, engatei uma apresentação de supetão e contei sobre a Banana.


“Ahhhn...” O senhor finalmente falou.


Ele se aproximou e me fez um questionário e pouco antes de eu acabar de contar a saga da Banana e a rede esburacada apareceu uma senhora muito amável com as mesmas perguntas. Expliquei para ela desde o começo e, novamente, pouco antes de acabar – exatamente no mesmo ponto da narrativa em que havia parado antes – apareceu a filha deles, uma moça jovem e bem bonita, com o mesmo questionário que eu já sabia de cor como responder. Eles estavam preocupados e buscavam se certificar que estavam entregando a gatinha para a pessoa certa, e isso fez com que eu me afeiçoasse muito por eles.


Ao final da minha história, que foi longa porque acabei conversando sobre todos os outros animais que já tivemos na vida, a moça falou o que eu mais queria ouvir:


“Hm... É. Tudo bate. Parece mesmo com a sua gatinha...”


UHUUUUUUUULLLLLL!!


“...Só que não consigo devolvê-la agora... Porque ela tá dormindo com o meu filho.”


AFF, CRIANÇA DORMINHOCA. Tá, fico envergonhada de assumir isso, mas na hora eu pensei “QUE CRIANÇA FICA DORMINDO ATÉ ÀS 8h30 DA MANHÃ?”.


Quase todas, eu sei. Eu só estava muito ansiosa. Foi uma mistura de êxtase com decepção. Acho inclusive que essa segunda sensação ficou extremamente visível na minha cara, porque a moça entrou discretamente na casa e voltou com a Banana dentro de uma caixinha de transporte. Toda fofa, ela me entregou a gatinha. Foi quando caiu a minha ficha de como eu estava sendo folgada. Eles estavam sendo tão legais e gentis comigo e com a minha gata. Nessa hora eu só podia pedir desculpas. Ver a Banana foi uma mistura de êxtase com culpa e eu espero que essa sensação também tenha sido visível.


Aí o tempo de São Paulo voltou a correr e aqueles 10 minutos de conversa se tornaram 1h12 e tive que sair no pulo (verdade-verdadeira, acho que 10 minutos foram gastos só com o silêncio do senhor...). Deixei a Banana em casa e me certifiquei que a Meia Noite continuava por ali e fui trabalhar.


Ao voltar, mais uma vez eu estava de frente para o portãozinho para devolver a caixa. Apertei a campainha e como na primeira vez, demorou umas três “apertadas” para aparecer um vulto na porta de vidro. Achei que era o senhor e ergui a caixa para que ele me reconhecesse.


Já estava bem escuro, mas tinha uma luz perto da porta. Surgiu um menino totalmente iluminado. A lâmpada estava posicionada de tal forma que parecia que a luz vinha dele mesmo. Ao abrir a porta ele parou, olhou, sorriu e desceu as escadas em direção ao portãozinho.


PAUSA: Imagine essa cena com bastante impacto. Arrisco dizer que até bateu uma brisa e tocou aquele saxofone da música Careless Whisper do George Michael.


Eu estava sem óculos, os olhos apertados, a boca aberta e o coração acelerado. Ele chegou perto e abriu o portão. Definitivamente não era o senhor que eu esperava.


“Você é a dona da gatinha que dormiu comigo?” A música parou.


Ele disse se aproximando com certa intimidade que me fez sentir como se já nos conhecêssemos, mas eu ainda não tinha tido esse prazer e o meu choque só aumentou:


ESSA É A CRIANCINHA QUE DORMIU COM A BANANA!?


Fisiologicamente os cálculos não batiam, a mãe dele parecia muito jovem: ou ela era mais velha do que eu imaginava ou ele era mais novo do que eu desejava. Mas com certeza a Banana era mais esperta do que eu pensava.


Ele continuou “Eu cheguei e ela já tava lá deitada na minha cama sem nem me conhecer! Toda carinhosa...”


Cogitei até dar a minha possível pior cantada (mas que não é porque não dei): “Você já ouviu falar que os animais são como seus donos?”.


PAUSA DE NOVO: Ai que ridículo, eu sei que é ridículo. Algumas raras vezes eu penso em dizer umas coisas da qual me envergonho, algumas vezes mais raras ainda eu tenho o bom senso de não verbalizar. Por sorte essa era uma dessas vezes e só respondi “Sim. Isso soa mesmo a cara da Banana...”.


Ele estava falante, mas eu só conseguia pensar no mistério que era a idade daquele menino. “Será que são os hormônios no leite?” Eu pensava. “Eu também adoro animais...” Eu respondia. Tão logo ele fez a clássica piada “Então vamos mudar de assunto: vamos falar de Top Therm!”, sobre a Iogurteira Top Therm, que nas minhas referências pessoais era uma piada específica de uma geração que compreende pessoas entre 25 a 35 anos, criei coragem para verbalizar meu espanto: “Então você tem mesmo mais de 20 anos!” Parecia afirmação, mas era uma dúvida e também uma esperança.


Foi na trave.


Conversamos por muito tempo sobre assuntos aleatórios e eu pensava em paralelo “Será que eu tô sorrindo demais? Mas porque mesmo a gente começou a falar sobre países nórdicos? Será que ele também é míope ou ele tá olhando diferente? AH, MEU DEUS, ELE TAMBÉM GOSTA DE BLOODHOUND GANG! UAU, UNIVERSO, É UM SINAL? Mas eu sou muito mais velha... Isso não daria certo, nem teríamos assunto... Apesar de que estamos conversando à 1h sobre a campainha quebrada deles...”. Eu sorria e me sentia mal por ter ficado feliz da Banana ter fugido.


Esse foi o dia mais adolescente da minha vida. Mais uma vez o portãozinho me testemunhava sentindo aquela mistura de êxtase com culpa, mas, desta vez, com certeza a expressão de êxtase era muito mais visível. O que estava acontecendo ali, pra mim, só acontecia em filmes do Nicholas Sparks (que eu nunca vi, mas imagino que sejam assim), a coincidência, o vento, a iluminação, os empecilhos, o cenário, o ator... Foi bem cinematográfico. Foi uma história tão bem sincronizada que me pareceu mais ficção do que os filmes do Steven Spielberg.


No meio da conversa saiu uma menina gritando por ele e ele logo disse que era a sua irmã. Igualmente linda, simpática e mais velha do que eu imaginava. Eles estavam atrasados para uma viagem que fariam ainda naquele dia. Logo em seguida a mãe, que era a moça bonita que eu já tinha conhecido antes, saiu com as chaves do carro na mão e um terceiro filho novinho no colo (esse realmente era novo), convocando todos para saírem. Ela sorriu e eles todos juntos lá só me faziam pensar “Meu Deus, que genética é essa?”.


Eu ainda estava vislumbrada, mas já tinha voltado para o meu estado normal e aproveitei para me despedir, agradecer mais uma vez e ficar à disposição para quando precisassem de algo. E a mãe logo engatou “Sendo assim, você pode me fazer companhia! Eu só estou indo levá-los para a faculdade para se encontrarem com os amigos, depois ia voltar sozinha. Vem comigo! Aí voltamos juntas!”. Nem deu tempo de pensar, fomos e foi super bacana. Passamos o caminho todo rindo, cantando e conversando como se nos conhecêssemos há anos. Tive uma conexão instantânea com eles e mesmo que nunca mais os visse, eu já estava muito feliz por tê-los conhecido. Todos eles. Talvez eu ainda fique um pouco sem graça quando vejo o avô, mas todos eles.


Até imaginei que provavelmente os trombaria mais uma ou duas vezes na rua, mas no final foram muitas vezes mais. Claro, éramos vizinhos, mas nunca havia acontecido antes. Eu que nunca os tinha visto, nunca tinha reparado naquela casa, de repente estava lá olhando estrelas de madrugada do outro lado do portãozinho no mesmo lugar que os gatinhos tomavam sol. Com a mesma paz e tranquilidade e com a mesma sensação de que o tempo estava mais lento, até dar 5h e eu ter que sair correndo pra tirar um cochilo antes de trabalhar, porque afinal ainda é São Paulo e aqui o tempo sempre está em função do trabalho.


Um dia, ao romanticíssimo som de Eiffel 65 de fundo, eu dormi no pé da escada da varanda no colo do Vizinho após várias conversas sobre as estrelas, o Universo e a campainha deles. É importantíssimo saber que onde eu durmo, eu fico. E ele ficou pacientemente esperando me dar o súbito estalo que me faz acordar do nada e sair andando.


Menos de 3h depois eu fui trabalhar como se um urso tivesse socado as minhas costas, um rato tivesse se alojado no meu cérebro e formigas mastigassem constantemente os meus pés. O sono não me deixava responder coisas básicas e o cansaço me fazia parecer uma carroça quebrada se arrastando. Não havia café que me devolvesse a alma. Eu percebi que estávamos naquela fase do filme em que tudo dá errado e parece que o fim vai chegar, e de certa forma chegou. Foi a primeira vez que fui obrigada a ver a nossa aventura de forma racional, mesmo não querendo.


Com o tempo nos distanciamos, mudei de casa e voltei a ver as estrelas da janela do meu quarto dormindo na cama, com a Banana e a Meia Noite.


Apesar da sincronia ter sido breve, os efeitos estão sendo duradouros.


Todas as vezes que esbarro em qualquer um deles na rua continuo achando mágico. E quando passo por lá, continuo tendo vergonha do portão-testemunha que viu todas as minhas emoções não complementares sair nas minhas expressões. Sempre que a campainha não funcionava eu conversava com o portão (parece coisa de doido, mas de tudo que eu já fiz acho que é uma das mais normais), na verdade mesmo eu só dava “oi” e sabia que o portão não ia responder (não sou tão doida assim), tudo ficava em silêncio, e eu ria. Sei lá porque eu achava engraçado, naquela época eu acho que ficava felizinha por tudo.


Às vezes eu falava com os gatos e os cachorros deles também, mas isso eu faço sempre com qualquer animalzinho. Já o portão foi o único que viveu tudo isso comigo. Ele pode confirmar muitos detalhes do que foi contado aqui. O portão e o porteiro do prédio da frente.


Eu vivi muito tempo naquele bairro, mas ali era só onde ficava a minha casa.


Conhecer aquela família me fez olhar a rua onde eu morava não só como via de passagem, mas como cenário da minha vida. Conheci outras pessoas que moravam ou frequentavam as proximidades, não tive mais uma manhã sem dar bom dia na rua e, quando me mudei, tive amigos para me despedir.


Dessa história pude viver várias outras.


Algumas situações, como essa, me fazem pensar que as coisas precisam ser exatamente como são. As pessoas, os acontecimentos, o momento. Às vezes algo que parece muito triste, nos traz a oportunidade de viver algo incrível e abrir os olhos para o que não víamos. E não digo apenas da forma mágica como encontrei a Banana depois de chorar de noite na calçada ou de como conheci uma família tão única e comecei a reparar no lugar onde eu vivia, mas tudo o que aprendemos quando a vida às vezes é como esperamos e principalmente quando a vida é totalmente diferente do que desejamos.

Passei muito tempo reclamando de como a Vizinha do 12 era um bocado intrometida, mas nada como o tempo pra me fazer no final agradecer exatamente pelo o que eu a julgava!

12 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Bardaria