UM GOLE DO UNIVERSO

em crônicas

Em 2016 coloquei como uma das metas do ano "Aprender a fazer um bom nhoque", mas foi só no final de 2018 que finalmente fiz um nhoque com cara e sabor de nhoque. Um prato que eu pensei "Eu pagaria por isso em um restaurante. Não pagaria muito caro, mas pagaria". E considerando meus talentos gastronômicos, pra mim isso foi uma baita conquista, que só foi possível porque eu me empenhei muito mais do que nos anos anteriores. Em um mês eu fiz mais nhoques (e tentativas de nhoques) do que a soma de todas as tentativas dos dois anos anteriores. Eu aprendi empiricamente que a repetição constante é um importante hábito para aprendermos a fazer algo que exige técnica, tal como escrever... Que é uma das minhas metas de 2019 :)

  • Karen Harumi

Diego

Atualizado: há 2 horas

"Diego nunca diz 'não'. Sempre aparece quando a gente chama."


Pensei que se fôsse verdade já gostava dele antes mesmo de conhecê-lo.

É raro alguém assim, pra pessoa ter essa fama ela deve ter ido em muito rolê meia boca só pela consideração de aparecer. Dou valor. Ninguém fala isso de alguém que só aparece quando convém.


Horas depois (talvez tenham sido apenas alguns minutos) lá estava ele sentado ao meu lado na mesa de jantar.


Não lembro de muita coisa, quando ele chegou eu já estava meio travada, mas continuava cumprindo o protocolo da socialização. Antes dele chegar éramos apenas dois, quando ele chegou éramos três e em algum momento depois fômos quatro, talvez até cinco.


Eu já estava rindo horrores quando ele chegou, eu devia mesmo estar em um Universo paralelo. Eu ria e ouvia. Eu ria e refletia. Eu ria e aprendia. Eu ria e às vezes eu só ria mesmo.


Muitas histórias foram contadas porque lá o povo é bom de prosa e resenha. Todo mundo que conheci tem algo digno de ser contado e pensa rápido. Nem tudo eu consegui lembrar no dia seguinte, na verdade acho que eu só lembro, e muito malemá, do que ele contou. Aquilo ali mudou o status quo em que eu me encontrava. Tem algo na locução dele que parecia narrativa de um filme.


Consegui ver tudo que ele contava projetado na minha frente. E é uma pena que eu não consiga me lembrar 100% do que ele contou, acho que nem 32%. E muito menos memorizei a escolha regional de palavras que expressavam sentimentos muito melhor do que as que me são comum e que vou tentar usar agora.


A única pessoa ali que eu conhecia destacou querer a opinião de Diego sobre um assunto. Foi ele quem chamou Diego sabendo que ele apareceria. Eles são amigos. É normal querer a opinião de um amigo pra muita coisa, mas ainda assim aquilo pra mim parecia ter um peso acima. Então resolvi prestar a atenção no que Diego tinha pra dizer. Não lembro nem sobre o que a opinião dele foi solicitada, tiveram muitas outras frases antes dessa, mas foi aqui que a história que ele contava me puxou de vez:


"...Aí esses dias, anos depois, do nada, ela apareceu mandando mensagem no Facebook compartilhando uma matéria e falando 'Eu fui lendo isso e percebi que fiz todas essas coisas com você. Eu sinto muito. Compartilhei com todos os meus amigos. Deve ter sido horrível'. Eu pensei 'Oxi, quê isso?', levei um susto, foi assim do nada. Aí vi que era sobre racismo. E respondi 'Foi mesmo.', o que é que eu ia dizer? Não sei se ela buscava conforto, mas eu ofereci sinceridade. Foi uma bosta!"


Se eu me lembro bem (não, eu não me lembro, mas vai que) ela foi alguém bem presente na infância dele; escola, rua, casa? Não lembro por onde. Cresceu lhe fazendo comentários que achava ter graça indo na onda de outras pessoas. E não é que não soubesse que suas frases eram ofensivas, mas aparentemente ela só se tocou do impacto disso ao crescer e ler aquela matéria.


Eu não disse nada, espero. Eu não estava em condição de dizer nada útil. Mal conseguia coordenar a fala com o pensamento.


Mas mexeu.


Quando ele disse que foi uma bosta, pensei o quanto eu fui ensinada a acolher desculpas como se elas magicamente apagassem todo o efeito duradouro que alguns erros geram e amei a sinceridade dele para com ela e principalmente para com ele mesmo.


Admirei Diego ali.


Dá pra perdoar sem passar pano e também dá pra não perdoar se ainda não lher for a hora.


E, claro, mesmo anos depois, é sempre importante criarmos consciência dos nossos erros, assumí-los e tentar mudar o cenário. Não nego que apesar de toda a dor que a moça gerou em Diego e Diego estar com todo o meu coração enquanto contava sua história, pensei sim "ao menos ela está compartilhando com todos, está tentando quebrar a bolha".


Mas é ainda mais importante termos a consciência de que quando sincera a Desculpa é uma ferramenta poderosa para mudar o presente e consequentemente o futuro; mas não muda o passado.






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