UM GOLE DO UNIVERSO

em crônicas

Em 2016 coloquei como uma das metas do ano "Aprender a fazer um bom nhoque", mas foi só no final de 2018 que finalmente fiz um nhoque com cara e sabor de nhoque. Um prato que eu pensei "Eu pagaria por isso em um restaurante. Não pagaria muito caro, mas pagaria". E considerando meus talentos gastronômicos, pra mim isso foi uma baita conquista, que só foi possível porque eu me empenhei muito mais do que nos anos anteriores. Em um mês eu fiz mais nhoques (e tentativas de nhoques) do que a soma de todas as tentativas dos dois anos anteriores. Eu aprendi empiricamente que a repetição constante é um importante hábito para aprendermos a fazer algo que exige técnica, tal como escrever... Que é uma das minhas metas de 2019 :)

  • Karen Harumi

Fósforo usado

Na faculdade, na aula de História da Arte, o professor tornou obrigatória a leitura de Maus de Art Spiegelman.


Eu não li durante o curso, porque entre o grande volume de coisas, acabei o sacrificando. Não lembro muito bem o porquê, talvez porque fosse um dos mais grossos e basicamente esse era o meu filtro.


Foi recém-formada que encontrei a história perdida entre tantos xerox.


Li um pequeno trecho e depois o procurei nas livrarias.


Maus ("rato", em alemão) conta a história de um judeu polonês que sobreviveu ao campo de concentração de Auschwitz, narrada por seu filho Art em quadrinhos. E enquanto Art narra a experiência do seu pai, ele também aborda a relação entre eles. Super recomendo.


E uma das minhas maiores lembranças do livro é de quando o Art em versão rato fala sobre o seu pai, já há tempos da Segunda Guerra Mundial, que comprou um sucrilhos, abriu, fechou e devolveu ao supermercado porque não gostou. Ele era extremamente pão-duro. Tão avarento, mão-de-vaca e levemente caricato que guardava os fósforos usados para economizar reutilizando no futuro. Tudo resquício das misérias vividas no Holocausto que ressignificou o valor de coisas cotidianas.


Tempos depois de ler, visitando a minha mãe em sua casa, há uns bons anos atrás, notei que ela tinha o mesmo costume com os fósforos. Ela tinha mais de três caixinhas cheias de fósforos já usados e que ela realmente reutilizava. Sem saber disso, peguei uma delas e não consegui usar; peguei a segunda e tampouco o fogo acendeu; na terceira, quando entendi, perguntei se ela queria que eu comprasse um acendedor. Porém ela recusou e disse que era só eu pegar a caixinha correta pra cada situação: sem fogo nenhum - caixinha de fósforos novos; com uma boca já acesa - caixinha de fósforo a serem reutilizados.


Às vezes ela reutilizava o mesmo fósforo mais de uma vez.


Nossa família nunca foi milionária, mas dinheiro pra comprar fósforos novos acho que nunca faltou. Mesmo nos dias mais apertados. E, com certeza, não naquele em que a visitei.


"Mãe... Por que a senhora guarda os fósforos já usados? É tão barato. Tão mais prático usar um novo. Inclusive mais divertido!" Eu adoro acender fósforos não usados.


"Pra economizar."


Ela fez um cálculo de que já devia ter economizado centenas de reais, se não mais, nos últimos anos com isso e mantém esse hábito firme até hoje. Juntamente com usar o banheiro às vezes no escuro, o chuveiro no gelado e ter um limite de tempo utilizando o ventilador, mesmo no pior calor, para economizar. Às vezes acho que se a minha mãe tivesse um restaurante, ela iria ser como o antigo dono do Pé de Fava. E ela sempre tem um embasamento numérico. Um cálculo, uma porcentagem, uma probabilidade. Minha mãe é ótima com números, teria sido uma excelente economista, pena ninguém tê-la incentivado antes e hoje ela já não levar essa possibilidade a sério.


Mas o ponto é que, desde então resolvi investigar melhor a história da minha mãe, uma vez que nunca soube de nada nem próximo do Holocausto que ela possa ter vivido pra despertar nela esse forte senso de economia.


Ela foi criada em sua infância para ser sustentada. Recebeu resistência quando sonhou em estudar Medicina na juventude. Mamãe foi a favorita do meu avô e ele nunca lhe deixou faltar peixe, contudo nunca a ensinou a pescar - talvez porque nem ele mesmo soubesse muito bem como. E depois minha mãe se casou com alguém que aprendeu que prover para sua esposa era um ato de amor, e sentia que seu sentimento era desvalorizado quando minha mãe insistia em estudar e trabalhar.


Mas um dia ela estudou, ela conseguiu, foi enfermeira e parteira como sempre sonhou. E das melhores!! Quando criança lembro que a minha mãe era como uma rockstar do parto. Sempre que descíamos no centro da cidade pra fazer qualquer coisa, alguém sempre vinha agradecê-la pelo parto de alguém próximo, senão o próprio. Já tiraram foto com ela na rua, pediram bilhetinho assinado. Ela era o Queen da Santa Casa de Lorena.


E então um dia, minha mãe por ser enfermeira e não médica, não pôde mais exercer na área em que ela se especializou e todo seu conhecimento foi esquecido pela sociedade e talvez até por ela mesma. Chegou a trabalhar em outras áreas, porém a dispensa veio logo depois, em várias sequências de surpresas.


O que pegou mesmo foi perceber que o sonho e a independência financeira que ela havia lutado tanto pra conseguir, lhe foram tirados do nada - simbolicamente no dia do seu aniversário.


Tenho por mim que desde então, minha mãe sempre se previne pro pior.

E aí eu lembro de Maus, do Holocausto e outras situações, algumas drásticas e outras infelizmente cotidianas, e penso que há várias maneiras de se tirar a vida de alguém sem matar. Algumas mais cruéis, algumas sutis e algumas tão silenciosas que nem se ouve pra que lado a vida foi.


Quando isso acontece, é necessário muita força pra se reinventar quando sua existência é descartada pela sociedade.


E, cara, como sou feliz da minha mãe ser super forte.


E eu acabei de tomar 1.000ml de Suco Verde natural e talvez seja isso, meu corpo não está acostumado a ingerir tanta coisa saudável de uma vez só, mas acordei pensando que... EU SEI, minha mãe só quer economizar porque ela tem medo de um dia perdermos tudo do nada sem nenhum aviso prévio. MAS... minha mãe é o fósforo usado. O fósforo que enquanto parecia novo, útil, foi almejado, comprado e depois de usado, descartado.


Reutilizar o fósforo, mais que um ato de economia, é um ato de resistência, de permanência, de ressignificação, é um símbolo singelo de que há medo sim pelo futuro, entretanto não há desistência. Que eles, minha mãe, Vladek Spiegelman (o pai mão-de-vaca em Maus) e outros guardadores de fósforos usados reconhecem várias durezas com que o mundo pode nos bater e que eles vão se prevenir pra continuar enfrentando com todas as armas e fósforos que conseguirem guardar.


Reutilizar o fósforo é dar um novo significado à sua existência.


Minha mãe é o fósforo usado...






Eu e minha mãe conversando em Julho de 2020

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