UM GOLE DO UNIVERSO

em crônicas

Em 2016 coloquei como uma das metas do ano "Aprender a fazer um bom nhoque", mas foi só no final de 2018 que finalmente fiz um nhoque com cara e sabor de nhoque. Um prato que eu pensei "Eu pagaria por isso em um restaurante. Não pagaria muito caro, mas pagaria". E considerando meus talentos gastronômicos, pra mim isso foi uma baita conquista, que só foi possível porque eu me empenhei muito mais do que nos anos anteriores. Em um mês eu fiz mais nhoques (e tentativas de nhoques) do que a soma de todas as tentativas dos dois anos anteriores. Eu aprendi empiricamente que a repetição constante é um importante hábito para aprendermos a fazer algo que exige técnica, tal como escrever... Que é uma das minhas metas de 2019 :)

  • Karen Harumi

Invisível

Como esperado, tudo ficou escuro e o filme começou a rodar.


Aquela beleza histórica de Paris sem a Torre Eiffel.

Era um lado escondido, mais escuro, silencioso, com luzes amareladas, ruas largas que levavam a vielas. Prédios cheios de adornos, mas com poucas pessoas.


Ao virar a esquina na Grande Avenida, era possível ver um casal discutindo emoldurados pela janela. A luz de dentro era ainda mais amarela que a de fora.


Notava-se que era uma discussão pelo modo que a moça arrumava a mala com fúria.

Não era a pressa, como se estivesse atrasada para um voo, mas sim a força com que jogava as roupas dentro da mala como se fosse uma granada que quisesse explodir. Não se arruma a mala assim quando se vai viajar, só quando se quer partir ou expulsar.


E aquilo quase distraía quem olhava de notar pouco abaixo as pessoas escondidas pelas sombras na calçada, se movimentando sorrateiramente quase como ratos, vasculhando lixeiras e panos.


Um deles se arriscou, saiu andando achando não ser notado.


Mas os meus olhos o seguiam como um encosto.

Um olho puxado olhando outro.


A sensação de invisibilidade nos faz tomar ações que nem sempre escolheríamos em público e digo isso mais por mim do que por ele.


Eu sabia que ele queria privacidade, mas era impossível não lhe observar. Havia algo nele que atraía a atenção. A coragem. A quebra naquele sistema, naquele cenário. As luzes dos postes que o acompanhavam como um holofote te obrigando a olhar para o protagonista da cena em um palco.


Ele andou por um bom tempo, procurando algo que parecia oculto, até encontrar.


A moeda brilhou em sua mão e ele foi firme até um carro de lanches que me surpreendi de eu não ter nem notado antes, e comprou um cachorro-quente.


Ele andou um pouco mais e se embolou com alguns panos que antes estavam escondidos dentro de uma lixeira. Ele pegou com propriedade e se sentou no canto mais escuro daquela calçada e começou a abrir o alumínio do lanche para saboreá-lo.


Não havia mais porque correr o risco de ser perseguido pelas luzes da rua.


Não para ele ao menos.

Mas com certeza valia a pena para a pessoa que apareceu repentinamente na sua frente enquanto ele ainda se afofava no chão.


Um homem suado, visivelmente cansado, magro, assustado, fugindo de algo até então desconhecido. Caiu literalmente do céu, ou talvez da sacada acima.


O silêncio era a única trilha sonora do filme.


Um olho puxado olhando um olho esbugalhado de susto.


O fugitivo ficou claramente assustado ao ver o homem que se escondia embaixo das cobertas - este por sua vez sorriu e levantou um dos cobertores e o moço que estava fugindo se escondeu ali.


Não muito perto, nem muito longe, um carro preto passou bem devagar e quando parecia ter visto o homem com o cachorro-quente embolado em panos, acelerou. Não abaixou nem mesmo a janela para não misturar os ares.


Esperaram um tempo.

O homem e o fugitivo.


O homem agia como se tudo estivesse normal e o fugitivo pouco depois voltou a fugir. Criou coragem para sair do cobertor e se levantou, meio tonto e ainda ofegante.

O homem que o recebeu ainda vestia seu sorriso e também se levantou para lhe oferecer o seu próprio e único cachorro-quente.


Eles ficaram se olhando intensamente por um tempo, me senti até constrangida de ver - claramente ali tinha um clima que exigia a privacidade que desde antes eu não havia conseguido respeitar.


O fugitivo sorriu de volta de uma maneira discreta e olhou uma de suas mãos sendo embrulhada em volta do lanche ainda quente por baixo do alumínio. Quando levantou seu olhos para agradecer, outro presente lhe foi dado, um beijo.


Com a expressão ainda mais assustada do que quando encontrou aquele homem pela primeira vez, acabou fechando os olhos e cedendo para a poesia do momento.


O silêncio nunca me pareceu tão romântico quanto naquela cena.


E então um estouro quebrou a mudez da noite.


Da onde vinha aquele barulho?

Seria o carro preto voltando?

Olhei para os lados, quase me esqueci deles ali.

Mesmo sendo uma testemunha invisível, aquilo me assustou.

Logicamente nada poderia me atingir, mas como boa telespectadora eu me sentia parte da história mesmo assim e por reflexo abaixei o corpo.


E então notei:

Era o fugitivo...


Fugindo do que quer que seja aquilo que ele sentiu, mas reprimiu.

Deu um tiro na barriga daquele que o acolheu.


O homem caía no chão, ainda com o sorriso que lhe aquecia mesmo numa morte a sangue frio.


...Já vi mil vezes pessoas que estiveram diante do amor e preferiram fugir; eu deveria entender, mas não entendi.


E o fugitivo, agora oficialmente assassino, olhando para o cachorro-quente que começou a esfriar caído no chão gelado, guardou a arma por baixo das suas roupas, olhou para a cena talvez tentando a entender a si mesmo e quando parecia desistir começou a andar. E, antes de voltar a correr, levantou os olhos mais uma vez e...


Era à mim que ele via enquanto corria.





Acima está o melhor desenho que eu pude fazer sobre o Invisível.

Me senti genial.

Só os inteligentes realmente podem ver.




Obs.: Conto escrito baseado em um sonho de Maio de 2020 em que a Lady Gaga era a mulher que jogava as roupas na mala, do casal que discutia.

7 visualizações0 comentário

Posts recentes

Ver tudo

Solidão