UM GOLE DO UNIVERSO

em crônicas

Em 2016 coloquei como uma das metas do ano "Aprender a fazer um bom nhoque", mas foi só no final de 2018 que finalmente fiz um nhoque com cara e sabor de nhoque. Um prato que eu pensei "Eu pagaria por isso em um restaurante. Não pagaria muito caro, mas pagaria". E considerando meus talentos gastronômicos, pra mim isso foi uma baita conquista, que só foi possível porque eu me empenhei muito mais do que nos anos anteriores. Em um mês eu fiz mais nhoques (e tentativas de nhoques) do que a soma de todas as tentativas dos dois anos anteriores. Eu aprendi empiricamente que a repetição constante é um importante hábito para aprendermos a fazer algo que exige técnica, tal como escrever... Que é uma das minhas metas de 2019 :)

  • Karen Harumi

Mistura

15º lugar no Concurso de Histórias Humanas de 2020

promovido pelo CNNE - Concurso Nacional de Novos Escritores



Quando criança uma das minhas maiores alegrias era o fim de ano, quando chegavam os dias de férias que passávamos na casa da minha avó e eu reencontrava meu primo-de-gene-e-irmão-de-coração, Nando. Todos os outros primos já eram adolescentes enquanto ainda éramos crianças. Com ele vivi um bilhão de aventuras que eu não lembro direito porque a minha memória é um cocô (salvo raríssimas exceções extremamente emblemáticas, como o dia que fomos ao circo pela 1ª vez ou quando tivemos a honra de conhecer os Bananas de Pijamas ao vivo), no entanto nunca me esqueci de uma situação cotidiana específica, uma contínua e involuntária demonstração de amor (e fome). Ele tinha um buraco no estômago e, apesar de muito magro, comia até a madeira da mesa se jogássemos molho. O que era ruim para a economia familiar, mas ótimo para mim, porque graças a isso todo o resto acontecia...


Todo dia eu interrompia meus importantíssimos afazeres infantis para desafiar o prato montanhoso que me serviam no almoço. Eu queria sair para brincar, mas por regra da minha avó, eu só podia depois de estar com o prato limpo – e ele só podia ser “limpo” de um jeito: comendo tudo que havia nele. Coisa que eu era incapaz. As pessoas que faziam o meu prato sempre achavam que eu precisava comer mais do que eu aguentava ou que eu queria, mas por sorte sempre havia alguém ao meu lado esperando! Era o meu fiel escudeiro Nando e seu buraco no estômago. Ele ficava lá me ouvindo reclamar que não aguentava o prato, desenhando no ar com o garfo e empurrando a comida para lá e para cá com a faca formando uma gororoba que dava ainda menos vontade de comer. Eu ficava assim até todo mundo sair da sala de jantar e podermos realizar o nosso regular diálogo das refeições:


“Você quer que eu termine paga você, Hagumi?” Ele tinha fofamente a língua “pguesa”.


E eu respondia “Só o arroz e feijão, Nando! Pode deixar que a mistura eu como sozinha!”


Eu sabia que ele ficava esperançoso de que pudesse comer mais um pedaço de carne ou outra coxa de frango assado, o que raramente acontecia, porque no meu estômago passava 0 salada, 0 arroz, 0 feijão e qualquer outra “base” da refeição – eu só convenientemente aguentava (e queria) comer a mistura, que é como chamamos qualquer acompanhamento que colocamos no prato para comer “misturado” com o arroz e feijão. Então eu comia as carnes e ele matava o que sobrasse no prato e saíamos para brincar. Isso virou um hábito recorrente e bem vantajoso para mim, mas acima disso, este hábito foi também um dos primeiros casos de altruísmo que me lembro de vivenciar na vida. No começo eu não entendia, porque às vezes é difícil compreender quando alguém é bom sem querer nada de volta com a nossa natureza tão egoísta, até que perguntei:


“Se cê continua com fome depois de terminar seu prato, por que cê não pede pra vó pra repetir?”


“Porque se eu comer mais eu não vô aguentar o que cê deixa no pgato.”


“Mas cê não precisa comer meu resto, ué...”


“Mas se eu não comer o que cê deixa, como é que cê vai sair pra bguincar se cê não aguenta tudo?”


Então eu entendi, não instantaneamente, mas eventualmente entendi. A gente riu, porque era verdade, mas isso, minha gente, para quem não conhece, é altruísmo. Se você não o conhece ou não bota muita fé na bondade alheia, talvez pudesse achar que ele só comia o que eu deixava para ter companhia para brincar, mas ele não era assim. Era mais quietinho e sabia brincar sozinho muito bem e às vezes acho que até preferia porque eu era bem mandona e nos enfiava numas brincadeiras bem zelelé – tipo escalar um mini-muro que caiu na gente ou fazer cabaninhas com lençóis presos por um ferro e vasos de vidro que eventualmente quebraram.


Mas o Nando, o Nando é incrível. Mesmo com muita fome, deixava de comer outro pedaço de torta, costela, peixe ou qualquer outra mistura que fosse pra comer o que eu deixasse no prato e ainda esperava eu terminar de comer (porque eu conseguia demorar mais para comer um pedaço de bife do que ele para comer todo o restante da minha refeição) porque é uma pessoa boa. Ele sabia que eu não aguentaria comer toda a comida no meu prato e, dessa forma, eu nunca poderia sair para brincar. Ele deixou de fazer algo por ele para fazer por mim.


Na época eu só ri mesmo, mas hoje eu sei que isso é muito! Conseguir abrir mão de algo pra si por outra pessoa mostra quão grande é o coração de alguém e o dele conseguia, surrealmente, ser maior que o seu já gigantesco buraco no estômago.



Os Bananas de Pijama super avant-garde com as tendências da pandemia 20 anos antes


O Nando está no centro, com bermuda vermelha.

Eu estou do lado de vestido florido.

Com bermuda xadrez está o Lipe, irmão do Nando.

...E as outras duas crianças eu não tenho ideia de quem sejam.

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