UM GOLE DO UNIVERSO

em crônicas

Em 2016 coloquei como uma das metas do ano "Aprender a fazer um bom nhoque", mas foi só no final de 2018 que finalmente fiz um nhoque com cara e sabor de nhoque. Um prato que eu pensei "Eu pagaria por isso em um restaurante. Não pagaria muito caro, mas pagaria". E considerando meus talentos gastronômicos, pra mim isso foi uma baita conquista, que só foi possível porque eu me empenhei muito mais do que nos anos anteriores. Em um mês eu fiz mais nhoques (e tentativas de nhoques) do que a soma de todas as tentativas dos dois anos anteriores. Eu aprendi empiricamente que a repetição constante é um importante hábito para aprendermos a fazer algo que exige técnica, tal como escrever... Que é uma das minhas metas de 2019 :)

  • Karen Harumi

¡Venga, venga!

Atualizado: Jan 12

Logo depois que nasci minha mãe foi pra Bolívia e levou a gente tudo junto: três filhas lindinhas que ela vestia com roupas que combinavam.


Costumo ver a minha mãe como uma típica cidadã do interior que nunca foi pra muito longe da sua cidadezinha, mas obviamente não é verdade. Ela já visitou e morou em algumas cidades diferentes, mas é uma das poucas pessoas que conheço que prefere ficar em casa ouvindo rádio do que viajar e conhecer novos lugares. Ainda mais hoje em dia, com uma sociedade tão viciada em experiências e que as consomem como produto.


Convivendo com isso, eu sei que ir pra Bolívia foi um ato muito corajoso da parte dela. Até porque, não era só uma questão de mudar de cidade, mas ela não conhecia ninguém por milhares de km², não falava espanhol, iria com três crianças pequenininhas e não ajudava muito uma delas ser um tanto...


Hm.

Vamos chamar de atentada.


Só para esclarecer, nessa época, ainda não era eu.

Eu ainda era só um bebê.


Moramos lá o suficiente para que meu pai realizasse seu trabalho e a minha irmã do meio tacasse o terror em Santa Cruz de la Sierra.


Eu era um bebê muito fofo e bochechudo e a minha irmã mais velha uma criança muito elegante e comportada. Sorríamos para as fotos, comíamos de quase tudo, não berrávamos aleatoriamente e sempre éramos obedientes, mas também éramos bem genéricas, meio esquecíveis.


E então tinha a nossa memorável irmã do meio: a única que fazia careta nas fotos.

A sua mais famosa aventura se deu em uma festa de aniversário.


Mamãe foi convidada por sua amiga a levar suas adoráveis filhas para prestigiar o aniversário do filho dela.


Seria uma festa de criança como qualquer outra, mas a minha irmã do meio foi nela.

Não havia como ser comum.

Éramos novos na Bolívia, as pessoas ainda só haviam visto nossos rostinhos.

Mas foi aqui, com essa história hit de sucesso familiar, que a minha irmã alcançou a fama na cidade.


Senão me engano o tema da festa foi Arco-Íris, que parecia ser o tema de quase todas as outras festas que fomos na Bolívia nessa época. As festas sempre tinham cor, celofane, confete, glitter e lantejoula. Se não fossem as lambadas tocando de fundo, pareceria Carnaval Paulistano o ano inteiro.


Ali tinha uma piñata maior que algumas crianças, garrafas de vidro de Seven Up, ombreiras em todas as mulheres, uns babados coloridos saindo da janela e a discografia completa da Xuxa em espanhol tocando, que foi interrompida quando uma criança berrou:


"¡Venga, venga! Que viene el fuego..."


A mesa INTEIRA estava em chamas.


Minha mãe, assim como todas as outras, correu na direção de suas filhas para garantir que estavam todas bem. As encontrou todas fofas como sempre foram e o extintor logo veio salvar todos daquela situação.


Ninguém se feriu além da decoração, das salteñas e das doces expectativas da mãe do aniversariante. Essa, por sinal, sumiu do mapa. Não apareceu nem mesmo pra nos abrir a porta e pegar de volta o tupperware que a minha mãe emprestou para levar o bolo. Quem é que não quer o tupperware com tampa de volta, gente?!


"Será que é porque eu estou devolvendo o tupperware vazio?" Minha mãe jamais imaginou que poderia ser algo muito além.


Foi só muito tempo depois que a revelação chegou aos nossos ouvidos: uma amiga em comum informou a minha mãe que, ao verem uma gravação da festa, a mãe do aniversariante identificou da onde tinha vindo o fogo misterioso que assolou seu planos e tornou aquela festa muito mais memorável do que jamais seria de outra forma:


Tinha vindo dela, da minha irmã do meio.



Parece que na Hora do Parabéns, algum adulto distraído deixou um isqueiro no canto da mesa depois de acender as velinhas e a minha irmã do meio sorrateiramente o pegou. E ali, sentadinha no canto perto da mesa, ela tentou uma vez, ela tentou uma segunda… E não precisou de uma terceira! O isqueiro funcionou como mágica, o fogo surgiu de seu buraquinho e seus olhinhos brilharam, mais pelo fogaréu que ela criou do que pela emoção. E então só precisou de um leve sopro para, de repente, o fogo se encontrar com o crepom e a minha irmã do meio queimar o filme da nossa família.





Segue o vídeo do aniversário bem na cena do fogo!

(BRINCADEIRA!! Nunca tivemos acesso ao mesmo...)

É só um dos meus vídeos favoritos da internet:



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